Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado
Sobre o bem cultural
Proponente do Registro
Associação Pacari
Abrangência do registro
Etiqueta temática
Atividade produtiva | Contexto rural | Saúde tradicional e medicina popular | Sociobiodiversidade | Tradição oral
Informações de destaque lateral
Livro de Registro
Data de Registro
10/06/2026
Estados Brasileiros
Bahia (BA) | Distrito Federal (DF) | Goiás (GO) | Maranhão (MA) | Mato Grosso (MT) | Mato Grosso do Sul (MS) | Minas Gerais (MG) | Piauí (PI) | Tocantins (TO)
Municípios da Instituição Proponente do Registro
Território já identificado
GO; TO; MG; MA; BA; PI
Acesse o processo de registro no Sistema Eletrônico de Informação
Recomendações e Diretrizes para Salvaguarda do Dossiê
O dossiê em sua sessão sobre a salvaguarda indica uma série de linhas a serem trabalhadas na salvaguarda do Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado. As linhas apontadas no dossiê foram aqui agrupadas em eixos, considerando as proximidades do escopo das ações, embora todas se conectem entre si. Com isso, chegamos ao quadro a seguir:
• Identificação, articulação e educação patrimonial
• Fomentar encontros entre raizeiras e raizeiros do Cerrado;
• Dar continuidade a pesquisa da Farmacopeia Popular do Cerrado;
• Realização de INRC ou pesquisas sobre o ofício de raizeiras e raizeiros em territórios indígenas, quilombolas, assentamentos, áreas urbanas e rurais;
• Mapear os raizeiros e raizeiras do Cerrado em municípios dos estados localizados no bioma Cerrado e no DF, tendo em vista a ameaça crescente de empreendimentos que tem aniquilado o território tradicional do Cerrado;
• Produção de material didático que informe sobre a história das comunidades a partir da perspectiva das raizeiras e raizeiros do Cerrado, o que levará em conta os conhecimentos tradicionais e a conservação do bioma;
Economia do Patrimônio: turismo e comercialização
• Incluir os raizeiros e raizeiras do Cerrado como guias turísticos em Parques Nacionais, criar cursos de formação de guias turísticos envolvendo a rede comunitária dos territórios indígenas, quilombolas e outros onde as raizeiras e raizeiros se encontram;
• Fomentar no nível municipal a instalação de viveiros de plantas medicinais sob a supervisão de raizeiras e raizeiros do Cerrado que possam gerar mudas, que serão matéria-prima para as farmacinhas das comunidades, com possibilidades de gerar renda adicional para as famílias agricultoras, articulando, assim, a manutenção das ações de cuidado com a vida plena e a consolidação dos assentamentos de reforma agrária
• Saúde: conhecimento tradicional e rede pública de saúde
• Criar mesa de diálogo com o Ministério da Saúde para discutir as farmacinhas e venda de remédios caseiros por raizeiras e raizeiros do Cerrado;
• Criar Grupo de Trabalho interministerial (MinC, MMA, MS, MIR, MPI) para pensar
a lei de proteção da medicina tradicional;
• Criar Grupo de Trabalho com o Ministério da Saúde (Secretaria Especial de Saúde
Indígena) para pensar a participação das e dos indígenas raizeiras e raizeiros do Cerrado
nas farmácias vivas nas UBSI (Unidades Básicas de Saúde Indígenas).
• Criar Grupo de Trabalho para pensar a participação dos guardiões e guardiãs de saberes ancestrais sobre o uso das plantas medicinas e sobre a alimentação indígena com compartilhamento de experiências das Pastorais da Criança no âmbito da saúde indígena;
Cerrado: território e governança
• Criar ações no nível municipal e distrital para fomentar os quintais nas áreas urbanas e periurbanas com a participação de raizeiras e raizeiros do Cerrado (visitas aos quintais e oficinas mantidas por raizeiros e raizeiras do Cerrado);
• Criar Grupo de Trabalho interministerial para pensar em um território de uso comum para coleta de plantas (Cerrado livre), reservas extrativistas e acesso aos Parques Nacionais;
• Criar mesa de diálogo com municípios e ministérios para que se busque a restauração do Cerrado em áreas urbanas, periurbanas e rurais com a mentoria das raizeiras e raizeiros da região.
Denominação
Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado
Descrição Completa
O ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado é constituído por um conjunto de saberes e práticas tradicionais relacionados à identificação, manejo sustentável e transformação de espécies vegetais do Cerrado em remédios caseiros destinados ao cuidado com a saúde. Integrante de um sistema tradicional de cuidado, esse saber converge conhecimentos sobre o território, as plantas, o corpo e o adoecimento. O ofício compreende: a leitura sensível do ambiente e o reconhecimento das espécies vegetais; práticas de manejo e coleta baseadas em critérios de respeito, permissão e sustentabilidade; técnicas próprias de preparo, conservação e combinação de insumos; escuta qualificada das pessoas atendidas e a indicação do uso dos remédios. A origem histórica do ofício remonta aos processos de ocupação humana do território hoje identificado como Cerrado, articulando matrizes de saberes indígenas, africanos e luso-brasileiros. Povos indígenas desenvolveram conhecimentos aprofundados sobre a biodiversidade local e seus usos medicinais; populações negras, especialmente quilombolas, agregaram experiências e cosmologias relacionadas ao cuidado e ao uso ritual e terapêutico das plantas; outras populações contribuíram para a consolidação de práticas adaptadas às condições ambientais e sociais da região. Dessa confluência, formou-se uma medicina tradicional das plantas do Cerrado, continuada e recriada ao longo de gerações. As detentoras e detentores do ofício são mulheres e homens residentes de territórios rurais, quilombolas, indígenas, periurbanos e urbanos situados na área de abrangência do Cerrado, bioma presente nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão e Piauí, além do Distrito Federal. Nota-se um claro protagonismo feminino na transmissão e exercício do ofício, devido às divisões sociais do cuidado historicamente atribuído às mulheres. Isso não impede que haja também a atuação de homens, formados no interior das mesmas redes familiares e comunitárias. A produção dos remédios caseiros ocorre, em geral, em espaços semelhantes a cozinhas, denominados farmacinhas caseiras ou farmacinhas comunitárias, sendo as últimas espaços abertos à comunidade. As técnicas empregadas são semelhantes às do preparo de alimentos e resultam em diversas formas de medicamentos, como garrafadas, tinturas, xaropes, pomadas, pílulas e chás, elaborados a partir de plantas medicinais e insumos da agricultura familiar. A definição do tratamento é realizada a partir de uma consulta na qual a raizeira ou o raizeiro realiza escuta atenta da história e das condições da pessoa atendida, mobilizando um repertório acumulado pela experiência e pela tradição. A transmissão dos saberes ocorre predominantemente pela oralidade e pela vivência, especialmente na convivência intergeracional, nas caminhadas pelo Cerrado e na participação no preparo dos remédios. O aprendizado envolve também valores éticos relacionados ao respeito às plantas, ao uso responsável dos recursos naturais e ao compromisso com o cuidado. A noção de dom e a crença na agência das plantas e na dimensão espiritual do cuidado fundamentam esse ofício. Rezas, pedidos de licença, rituais e orientações recebidas em sonhos integram o universo simbólico que legitima a prática e orienta a conduta das detentoras e detentores. A eficácia terapêutica é socialmente reconhecida por meio de testemunhos de cura e pela confiança reiterada das comunidades que recorrem a esses saberes. O Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado é indissociável do ecossistema em que está inserido. O Cerrado, segundo maior bioma do país e reconhecido como uma das regiões de maior biodiversidade do mundo, fornece a base material do ofício. A continuidade dessa prática cultural depende da conservação das espécies nativas, das águas e dos territórios tradicionais onde se realiza a coleta e a transmissão dos conhecimentos. O bem cultural integra, portanto, um sistema tradicional de cuidado que articula cultura, meio ambiente e modos de vida, expressando identidade, memória e resistência de povos e comunidades do Brasil central. O Ofício de Raizeiras e Raizeiros do Cerrado constitui-se como patrimônio cultural brasileiro por sua atuação em comunidades tradicionais, sobretudo entre aquelas com acesso limitado à saúde; por sua continuidade histórica, transmitida de geração em geração; por sua relevância para a diversidade cultural brasileira e para a salvaguarda dos conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade.
Solicitação de Registro do Bem
Anuência da Comunidade
Data do Documento
19/05/2006
Autor
Comissão da Farmacopéia Popular do Cerrado do estado de Golas
Nota Técnica de Pertinencia
Ata/Decisão da Câmara Técnica do Patrimônio Imaterial
Data do Documento
14/03/2007
Autor
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
Dossiê do Registro
Autor
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
Parecer técnico do Iphan
Aviso de tramitação no DOU
Título do Bem
Data do Documento
17/06/2026
Autor
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)







